terça-feira, 7 de abril de 2015

Jaisalmer, 44º C - Lua Minguante, Fevereiro

As gravações terminaram e minha parte na pós-produção também. Pude sair dos estúdios com a cabeça erguida e confiante de ter feito um bom trabalho. O que mais me agrada na Índia é a rapidez com que os trabalhos são feitos. Claro, que a maioria é no improviso e com reparos na hora, mas acho que essa é a graça do cinema indiano. Em que outro lugar do mundo um filme ficaria pronto em três meses? Pelo menos foi tempo suficiente para criar laços com a equipe. Fica aqui a minha eterna gratidão ao Khaitan pela confiança e o convite. Levarei para sempre comigo os momentos de risadas com Varun - esse sim sabe ser galã. E jamais, jamais, vou esquecer o que a Alia me proporcionou.

A Índia - como eu não me canso de falar - tem 1 bilhão e duzentos milhões de habitantes (e uma infinidade de animais), então se você conseguir ser famoso nesse lugar, você se torna muito famoso. E com Alia é assim. Mas apesar da pouca idade 22 anos - pouca comparada com os meus 37 -, ela consegue muito bem lidar com os milhões de fãs espalhados por aí e, de quebra, não esquece das raízes. E foi por ela não esquecer das raízes que eu pude ter o contato com a Índia que eu buscava. 

O Rajastão não era rota da minha viagem, fui para lá a pedido de Alia que iria visitar sua avó e que me garantiu uma experiência imperdível. Fui. Calor. Ar seco e quente. Deserto de Thar. Jaisalmer. Morada dos mortos. Noroeste da Índia. É impossível fazer qualquer comparação com a cidade nos parâmetros terráqueos. No mínimo aquilo é um pedaço de Marte. Olha que eu já estive em alguns desertos antes, mas nada se iguala àquela cor dourada de terra seca que rodeia o Forte de Jaisalmer. O Forte, foi construído em meados do século XII e ainda hoje está lá, inteiro, convivendo com a Índia globalizada e os raios solares incidentes. 

Das 70 mil pessoas que hoje vivem em Jaisalmer, 3 mil dividem o interior do Forte. Freida Bhatt está ali com o resto da família de Alia. Todos vivendo dentro de uma obra com arquitetura, técnica e modos medievais. Camelos. Muitos camelos naquela região. O mais incrível em Freida, não é ser uma matriarca respeitada por todos numa sociedade machista como aquela, acredito que muito se deve a Alia ser famosa (a imprensa marrom da Índia às vezes traz a tona que a família de Alia é comandada por uma mulher viúva que não guarda o luto de seu marido - mesmo após mais de 20 anos de sua morte -, mas a sociedade em geral está perdendo esse conservadorismo), o que mais encanta nessa mulher é a fé na religião Jainista. 

Fé numa religião ateísta. Ateísta. O registro mais antigo da religião data do século VI a.C., mas assegurada ser mais antiga pelos seus adeptos. A filosofia do jainísmo é, basicamente, o amor pela eterna e universal sabedoria de si mesmo e da universalidade. A religião não foi criada por uma pessoa específica ou em uma época específica. De tempos em tempos dentro de uma cronologia cíclica aparece 'professores', os chamados Tirthankaras, que pregam a essa religião eterna e universal. Todos os seres vivos, do ponto de vista do jainísmo, têm alma e devem ser tratados igualmente. 

Nunca tinha visto uma religião tão preocupada, do meu ponto de vista, em viver em paz com a Terra. Onde até as plantas devem ser cuidadas e agradecidas caso servidas como alimento. Tudo é isso. Amor pela sabedoria de si mesmo e da universalidade. Amor pela sabedoria de si mesmo. Isso me ecoa. Amor pela sabedoria de si mesmo. A minha universalidade. Amor pela sabedoria de si mesmo. Jainísmo. Amor pela sabedoria de si mesmo. Eternidade. Amor pela sabedoria de si mesmo. Brasil. Aqui está o fim do meu ciclo. Sou o Tirthankara de mim mesmo. Amor pela sabedoria de si mesmo. Preciso voltar. Faz mas sentido a cronologia circular que a linear tipicamente ocidental. Brasil. 

Olho pra trás e vejo aquele menino, que não se via como menino, mas era. Aquele que pensava que a vida de gente grande era difícil e normal demais. Aquele que desafiou a vida, desapegou do mundo que o cercava e resolveu cercar o mundo. Que fez uma decisão mais fácil que o vestibular, mas que definiu toda a sua vida. Olho pra trás e sinto orgulho. Se fosse hoje, talvez, eu não faria o mesmo. Não me arriscaria tanto. Não sonharia tanto. Então, olho para trás com respeito e com vontade de ir buscá-lo. 

Amor pela sabedoria de si mesmo e da universalidade. Meu espírito está confortável agora. Entendido. Acalentado. Sábio. Universal. Amor. 

Gael Atalaia.

ANEXOS:
Vista do forte de Jaisalmer de um poço desativado nas redondezas da cidade dourada.

Freida Bhatt, guerreira de laranja. Contradizendo os costumes tradicionais de que viúvas devem utilizar roxo ou preto. 
Alia Bhatt e Varun Dhawan. Ótimos momentos e risadas em todas as locações. 

Detalhe no interior do Forte de Jaisalmer.

Humpty Sharma Ki Dulhania. Com Alia Bhatt e Varun Dhawan. Direção de Shashank Khaitan. Direção de arte: Gael Atalaia.

Trailer de HSKD 

Cena complicada e preferida. Alia mostrando que sabe cantar sim e muito bem, viu senhora revista Filmfare!!

terça-feira, 31 de março de 2015

Nova Delhi, 25º C - Lua nova, fevereiro.

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Na minha primeira e única casa nesse mundo, a cozinha dançava num tango de acordo com as vontades de minha mãe - assim como a poeira, a luz e o vento -, mas, independente da posição da mesa e dos armários ou se o filtro era de barro ou de plástico, sempre havia dentro de uma xícara de vidro trabalhado com a borda quebrada, um chocalho de cascavel. Oito guizos que sacolejavam na minha cabeça. 'Não balança, senão as outras escutam e vêm visitar'. Achava bonito. As cascavéis. Uma vez em uma entrevista de emprego, quando no auge da minha ideia em ser uma pessoa 'normal', respondi em uma daquelas dinâmicas de grupo que seria uma cascavel. Lembro até da cara dos outros candidatos cachorros, formigas e leões. Sim! Eu seria uma cascavel. Aquele ser que naturalmente passa por mudanças periódicas de pele, sem mudar a sua essência e ainda leva uma bagagem que comunica aos outros seres a que veio. Porque, não é o veneno da cascavel que é poderoso, é o chocalho. É a identidade. É prova de quantas transformações já passou, quantas peles deixou por aí. E disso nunca se pode desfazer, está ali. Sempre atrás. Junto ao corpo, dando a identidade do ser. Diferente do camaleão, a cascavel se orgulha de ser ela própria e não de poder ser várias. 

Mas esta cobra, criada para a exposição, não parece orgulhosa de si. Acredito que nem a perceberia, visto que são tantas colocadas nesses cestos de palha entrelaçada. Elas ficam aí, rijas vendo as pessoas olharem para elas como se fosse de outro mundo enquanto um senhor toca uma flauta... Nem todas as cobras têm o privilégio de ser cascavel afinal. Eu, não digo por sorte ou por azar (há tempos já não classifico as coisas com um sentido positivo ou negativo), sou. Troco de pele, não sei quantas vezes já o fiz, ou quantas pessoas ainda levam um pouco dela na sua. Troco. Ato mecânico e deliberamente programado pela natureza. Sempre troquei de pele, sem dor, sem drama. 

Agora que minha pela já está gasta pelos sóis, pelos ventos e pelas chuvas que tomei nessa vida. Que meus olhos já não brilham mais como antes. Que o corpo da alma clama pelo aconchego é hora de voltar. Voltar não sei para o quê ou para onde, não construí nada na minha vida para voltar. Nem as pessoas estão mais por lá, onde nasci, algumas se foram se eu me despedir, outras se foram dentro da imensidão que nem sabiam que existiam dentro de si. Mas é hora de voltar. O mundo é grande, mas não me caibo tanto quanto em casa. Onde o umbigo foi enterrado, onde existem cascavéis nas fitas de vídeo e nas xícaras. O mundo agora não é mais minha casa, meu corpo o é, com todos os seus barulhos, chocalhos e cicatrizes. Queria mais água no feijão, tenho pouco mais de duas horas nessa cidade. Hora de trocar de pele. 


Gael Atalaia 

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