As gravações terminaram e minha parte na pós-produção também. Pude sair dos estúdios com a cabeça erguida e confiante de ter feito um bom trabalho. O que mais me agrada na Índia é a rapidez com que os trabalhos são feitos. Claro, que a maioria é no improviso e com reparos na hora, mas acho que essa é a graça do cinema indiano. Em que outro lugar do mundo um filme ficaria pronto em três meses? Pelo menos foi tempo suficiente para criar laços com a equipe. Fica aqui a minha eterna gratidão ao Khaitan pela confiança e o convite. Levarei para sempre comigo os momentos de risadas com Varun - esse sim sabe ser galã. E jamais, jamais, vou esquecer o que a Alia me proporcionou.
A Índia - como eu não me canso de falar - tem 1 bilhão e duzentos milhões de habitantes (e uma infinidade de animais), então se você conseguir ser famoso nesse lugar, você se torna muito famoso. E com Alia é assim. Mas apesar da pouca idade 22 anos - pouca comparada com os meus 37 -, ela consegue muito bem lidar com os milhões de fãs espalhados por aí e, de quebra, não esquece das raízes. E foi por ela não esquecer das raízes que eu pude ter o contato com a Índia que eu buscava.
O Rajastão não era rota da minha viagem, fui para lá a pedido de Alia que iria visitar sua avó e que me garantiu uma experiência imperdível. Fui. Calor. Ar seco e quente. Deserto de Thar. Jaisalmer. Morada dos mortos. Noroeste da Índia. É impossível fazer qualquer comparação com a cidade nos parâmetros terráqueos. No mínimo aquilo é um pedaço de Marte. Olha que eu já estive em alguns desertos antes, mas nada se iguala àquela cor dourada de terra seca que rodeia o Forte de Jaisalmer. O Forte, foi construído em meados do século XII e ainda hoje está lá, inteiro, convivendo com a Índia globalizada e os raios solares incidentes.
Das 70 mil pessoas que hoje vivem em Jaisalmer, 3 mil dividem o interior do Forte. Freida Bhatt está ali com o resto da família de Alia. Todos vivendo dentro de uma obra com arquitetura, técnica e modos medievais. Camelos. Muitos camelos naquela região. O mais incrível em Freida, não é ser uma matriarca respeitada por todos numa sociedade machista como aquela, acredito que muito se deve a Alia ser famosa (a imprensa marrom da Índia às vezes traz a tona que a família de Alia é comandada por uma mulher viúva que não guarda o luto de seu marido - mesmo após mais de 20 anos de sua morte -, mas a sociedade em geral está perdendo esse conservadorismo), o que mais encanta nessa mulher é a fé na religião Jainista.
Fé numa religião ateísta. Ateísta. O registro mais antigo da religião data do século VI a.C., mas assegurada ser mais antiga pelos seus adeptos. A filosofia do jainísmo é, basicamente, o amor pela eterna e universal sabedoria de si mesmo e da universalidade. A religião não foi criada por uma pessoa específica ou em uma época específica. De tempos em tempos dentro de uma cronologia cíclica aparece 'professores', os chamados Tirthankaras, que pregam a essa religião eterna e universal. Todos os seres vivos, do ponto de vista do jainísmo, têm alma e devem ser tratados igualmente.
Nunca tinha visto uma religião tão preocupada, do meu ponto de vista, em viver em paz com a Terra. Onde até as plantas devem ser cuidadas e agradecidas caso servidas como alimento. Tudo é isso. Amor pela sabedoria de si mesmo e da universalidade. Amor pela sabedoria de si mesmo. Isso me ecoa. Amor pela sabedoria de si mesmo. A minha universalidade. Amor pela sabedoria de si mesmo. Jainísmo. Amor pela sabedoria de si mesmo. Eternidade. Amor pela sabedoria de si mesmo. Brasil. Aqui está o fim do meu ciclo. Sou o Tirthankara de mim mesmo. Amor pela sabedoria de si mesmo. Preciso voltar. Faz mas sentido a cronologia circular que a linear tipicamente ocidental. Brasil.
Olho pra trás e vejo aquele menino, que não se via como menino, mas era. Aquele que pensava que a vida de gente grande era difícil e normal demais. Aquele que desafiou a vida, desapegou do mundo que o cercava e resolveu cercar o mundo. Que fez uma decisão mais fácil que o vestibular, mas que definiu toda a sua vida. Olho pra trás e sinto orgulho. Se fosse hoje, talvez, eu não faria o mesmo. Não me arriscaria tanto. Não sonharia tanto. Então, olho para trás com respeito e com vontade de ir buscá-lo.
Amor pela sabedoria de si mesmo e da universalidade. Meu espírito está confortável agora. Entendido. Acalentado. Sábio. Universal. Amor.
Gael Atalaia.
ANEXOS:
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| Vista do forte de Jaisalmer de um poço desativado nas redondezas da cidade dourada. |
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| Freida Bhatt, guerreira de laranja. Contradizendo os costumes tradicionais de que viúvas devem utilizar roxo ou preto. |
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| Alia Bhatt e Varun Dhawan. Ótimos momentos e risadas em todas as locações. |
| Detalhe no interior do Forte de Jaisalmer. |
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| Humpty Sharma Ki Dulhania. Com Alia Bhatt e Varun Dhawan. Direção de Shashank Khaitan. Direção de arte: Gael Atalaia. |
Trailer de HSKD
Cena complicada e preferida. Alia mostrando que sabe cantar sim e muito bem, viu senhora revista Filmfare!!




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