.
Na minha primeira e única casa nesse mundo, a cozinha dançava num tango de acordo com as vontades de minha mãe - assim como a poeira, a luz e o vento -, mas, independente da posição da mesa e dos armários ou se o filtro era de barro ou de plástico, sempre havia dentro de uma xícara de vidro trabalhado com a borda quebrada, um chocalho de cascavel. Oito guizos que sacolejavam na minha cabeça. 'Não balança, senão as outras escutam e vêm visitar'. Achava bonito. As cascavéis. Uma vez em uma entrevista de emprego, quando no auge da minha ideia em ser uma pessoa 'normal', respondi em uma daquelas dinâmicas de grupo que seria uma cascavel. Lembro até da cara dos outros candidatos cachorros, formigas e leões. Sim! Eu seria uma cascavel. Aquele ser que naturalmente passa por mudanças periódicas de pele, sem mudar a sua essência e ainda leva uma bagagem que comunica aos outros seres a que veio. Porque, não é o veneno da cascavel que é poderoso, é o chocalho. É a identidade. É prova de quantas transformações já passou, quantas peles deixou por aí. E disso nunca se pode desfazer, está ali. Sempre atrás. Junto ao corpo, dando a identidade do ser. Diferente do camaleão, a cascavel se orgulha de ser ela própria e não de poder ser várias.
Mas esta cobra, criada para a exposição, não parece orgulhosa de si. Acredito que nem a perceberia, visto que são tantas colocadas nesses cestos de palha entrelaçada. Elas ficam aí, rijas vendo as pessoas olharem para elas como se fosse de outro mundo enquanto um senhor toca uma flauta... Nem todas as cobras têm o privilégio de ser cascavel afinal. Eu, não digo por sorte ou por azar (há tempos já não classifico as coisas com um sentido positivo ou negativo), sou. Troco de pele, não sei quantas vezes já o fiz, ou quantas pessoas ainda levam um pouco dela na sua. Troco. Ato mecânico e deliberamente programado pela natureza. Sempre troquei de pele, sem dor, sem drama.
Agora que minha pela já está gasta pelos sóis, pelos ventos e pelas chuvas que tomei nessa vida. Que meus olhos já não brilham mais como antes. Que o corpo da alma clama pelo aconchego é hora de voltar. Voltar não sei para o quê ou para onde, não construí nada na minha vida para voltar. Nem as pessoas estão mais por lá, onde nasci, algumas se foram se eu me despedir, outras se foram dentro da imensidão que nem sabiam que existiam dentro de si. Mas é hora de voltar. O mundo é grande, mas não me caibo tanto quanto em casa. Onde o umbigo foi enterrado, onde existem cascavéis nas fitas de vídeo e nas xícaras. O mundo agora não é mais minha casa, meu corpo o é, com todos os seus barulhos, chocalhos e cicatrizes. Queria mais água no feijão, tenho pouco mais de duas horas nessa cidade. Hora de trocar de pele.
Gael Atalaia
.
Nenhum comentário:
Postar um comentário